19/04/2017 as 20h31 - Atualizado em 19/04/2017 as 20h31

FLORIANÓPOLIS - Corpo gordo em dança: bailarina Jussara Belchior estreia solo "Peso Bruto"

Integrante do Cena 11 Cia de Dança, bailarina contesta padrões de beleza e desconstrói eufemismos em espetáculo de dança que terá curta temporada na Capital



Um corpo gordo não é um corpo cheinho, fofinho — esses, sim, são eufemismos para disfarçar a carga pejorativa que a palavra não deveria ter, mas tem. Como se um corpo diferente do padrão fosse um corpo inadequado. Em Peso Bruto, a bailarina gorda Jussara Belchior, 31 anos, evoca a materialidade de suas dobras e carne farta e contesta os padrões de beleza. O espetáculo de dança contemporânea estreia nesta quinta, na Capital, e fica em cartaz durante curta temporada (dias 21, 28, 29 e 30) no Teatro do Sesc Prainha. É o primeiro trabalho solo da integrante do Cena 11, uma das mais respeitadas companhias de dança do Brasil.

Peso Bruto foi contemplado pelo Rumos Itaú Cultural (2015-2016), um dos principais programas de fomento à cultura do país. O projeto já estava nos planos da bailarina há muito tempo, mas só agora a ideia pareceu mais oportuna e o preconceito sentido ao longo de 25 anos dedicados à dança, melhor digerido.
— Comecei a dançar aos seis anos. E nunca parei, até virar bailarina profissional. Sempre fui gorda e sempre sofri preconceito. Sempre teve o estranhamento por me acharem fora do padrão. Achei que era hora de falar sobre isso — comenta a bailarina.

A formação de Jussara vem do balé clássico. Antes de ser selecionada para integrar o Cena 11 e morar em Florianópolis, em 2007, fez parte de companhias menores em São Paulo, onde nasceu, e com as quais participou de festivais competitivos.

— As competições tinham a pressão do padrão. Quando o grupo recebia as notas, junto vinham as observações do tipo "cuidado com o peso das bailarinas" — lembra.

A graduação em Comunicação das Artes do Corpo, pela PUC de São Paulo, mostrou um horizonte diferente para Jussara. Passou a perceber outras possibilidades para sua dança e seus 100 quilos distribuídos em 1,5m de altura, e foi quando conheceu a pesquisa desenvolvida pelo grupo catarinense Cena 11:

— Percebi que a dança contemporânea me possibilitava trabalhar as facilidades do meu corpo, em vez de ir atrás de um ideal. Aprendi a dançar o que eu sou, em vez de ser o que foi imposto. A saber o quanto eu peso. A pensar na força do meu movimento, no barulho que eu faço.

Peso Bruto tem duração de 35 minutos. Jussara Belchior assina a criação, produção e dança. No palco, ela exibe a fartura de pele e dobras no figurino assinado por Joana Kretzer Brandenburg: lingerie preta, rendada. A dança propõe um diálogo entre o peso, o desejo, o apetite, a beleza e a sensualidade.

Nessa linha, indica uma forma de resistência que contesta os modelos de comportamento e discute as noções de embalagem, aparência e conteúdo.
— O gordo está sempre disfarçado. O corpo tem toda essa materialidade e a gente pode escolher como se mostrar.

O espetáculo contou com a interlocução de Soraya Portela, bailarina gorda de Teresina (PI). A dramaturgia é de Anderson do Carmo, trilha sonora de Dimitri Camorlinga e iluminação de Marcos Klann.

AGENDE-SE
O quê: espetáculo Peso Bruto, de Jussara Belchior
Quando: 20, 21, 28, 29 e 30/4, às 20h
Onde: Teatro do Sesc Prainha (Travessa Syriaco Atherino, 100, Centro, Florianópolis)
Quanto: gratuito. Ingressos devem ser retirados uma hora antes
Informações: (48) 3229-2200
Classificação indicativa: 16 anos

HORA


Públicado por: Adriane Siqueira